O poderoso Caboclo Pantera Negra

 


Muito do que se ensina na internet através de blogs e sites não condiz com a realidade dos fatos… é uma pena…



Tantos pseudo sábios tem tentado em vão ensinar sobre o Caboclo Pantera Negra e até alguns novos médiuns tem se destacado no universo Umbandista e Quimbandeiro divulgando sua manifestação em seus centros.


 Os mais antigos Umbandistas da década de 70, tiveram o privilégio de conhecer esta poderosa entidade já em seus primeiros anos de manifestações e trabalhos de caridade na Gloriosa Umbanda.


 Hoje em dia seus antigos médiuns já não se encontram conosco, e são poucos dos médiuns atuais que realmente trabalham com essa poderosa entidade de forma correta e sem mistificações.


 Só o nome já chama a atenção, causa uma certa curiosidade nos mais aficcionados pela Umbanda ou Quimbanda em conhecer esta entidade e saber mais um pouco, muitos tem mistificado usando o nome deste poderoso Caboclo Quimbandeiro para se destacar, ou se promover no meio Umbandista e até se impor como sendo de maior axé dentro dos cultos.


 Mas na verdade o Sr. Pantera Negra, ou para os mais íntimos, Sêo Pantera, escolhe a dedo seus médiuns, sendo muito rara sua manifestação através da incorporação.


 Uma das particularidades deste poderoso Caboclo Quimbandeiro ( não usarei o termo Exú, mesmo girando na Quimbanda ele continua a ser um Caboclo ) é a sua capacidade de manifestar-se à qualquer hora do dia ou da noite, sendo por isso muito solicitado em casos de difícil solução, pois detém o poder de resolver até mesmo coisas que julgamos impossíveis.


 Quando manifestado através da incorporação, fala com tremenda autoridade, firme ao falar, cumpre o que diz e jamais deixa um filho-de-fé sem uma solução para seus problemas.


 Na Quimbanda por questões evolutivas não aceita sacrifícios de animais em suas obrigações e assentamentos, jamais se manifesta imitando o animal Pantera ou qualquer outro felino, apenas os mistificadores é que se valem disso para impressionar os menos esclarecidos.


 O Caboclo Pantera Negra é um dos espíritos oriundo da Tribo Hopi dos EUA, ostenta o nome de Pantera Negra por conta de sua coragem e determinação, força e espírito guerreiro, qualidade que só os Panteras Negras possuem, alguns estudiosos afirmam que ele seja de origem Tupi, coisa realmente impossível, pois a Linha dos Caboclos Quimbandeiros tem em suas fileiras apenas espíritos pertencentes à tribos indígenas da América do Norte.

Na Quimbanda ele é responsável pela chefia da segunda e mais temida Linha de Quimbanda, a Linha dos Caboclos Quimbandeiros, ele possui atributos diferentes dos demais Exús, sendo muitas vezes solicitado para trabalhos de Magia Negra e demandas espitituais, tanto ele como seus subordinados, os Caboclos Quimbandeiros.


 Com o objetivo de esclarecer melhor os Filhos e Filhas-de-fé, as sete linhas de Quimbanda são únicas, não existem linhas paralelas ou diferentes das sete linhas tradicionais, que são fixas e imutáveis, despreze o Quimbandeiro que teima em admitir linhas diferentes das originais.


 Segue abaixo a lista das sete linhas tradicionais e seus respectivos Chefes, dentre eles, o Poderoso Pantera Negra:


1ª Linha - Linha de Malei – Chefe – Exu Rei





                   
                      2ª Linha - Linha dos Caboclos Quimbandeiros – Chefe – Exu Pantera Negra


3ª Linha - Linha do Cemitério ou das Caveiras – Chefe – Exu Caveira

 


4ª Linha - Linha Nagô – Chefe – Gererê o Rei de Ganga

 


5ª Linha - Linha de Mossurubi – Chefe – Exú Kaminaloá

 


6ª Linha - Linha Mista – Chefe – Exú das Campinas

 


7ª Linha - Linha das Almas – Chefe – Exú Omulu ( não confundir com Orixá Omulú )

 


Possui estreita relação com o Orixá Ogum, devido a sua personalidade e atributos guerreiros e está diretamente relacionado com o Caboclo Ogum Rompe Mato na Umbanda.

 




A Linha dos Caboclos Quimbandeiros é composta de espíritos indígenas de várias tribos da América do Norte: Sherokees, Apaches, Sioux, etc…

 


Sendo seu Chefe, o Caboclo ( ou Exú ) Pantera Negra oriundo da Tribo Hopi um dos povos mais antigos das Américas.

 


Os componentes da Linha dos Caboclos Quimbandeiros são:

 


Exú Arranca Toco

 

Exu Sete Poeira

 

Exú Pimenta

 

Exú Asa Negra

 

Exú Gira Mundo

 

Exú Pantera Vermelha

 

Exú Pedra Negra

 

Exú das Matas

 

Exú Tronqueira

 

Exú dos Rios

 

Exú Quebra Galho

 

Exú Treme Terra


Pombagira Guerreira

 


Nos terreiros que cultuam a Umbanda ele é saudado no início de cada sessão de trabalhos e ao final dos trabalhos também, muito temido e respeitado ele sempre é solicitado para proteger e limpar o recinto levando as cargas negativas embora.

 

Ainda em algumas casas tradicionais se ouve o cântico ao início ou fim dos trabalhos, sempre cercado de enorme reverência e temor:

 


” Procure por todas bandas…

Por todas vais encontrar…
Seu nome é Pantera negra…
Vai chegar pra trabalhar.”

 


” Já bateu a meia noite…

Vou fazer minha oração…
Vai chegar Pantera Negra…
Com toda sua legião.”

 


Quando manifesto em uma sessão de Umbanda trabalha da mesma forma que nas giras de Quimbanda, sempre firme, ouve as súplicas de seus filhos-de-fé e sempre esta disposto para assumir o caso e dar uma solução o mais rápida possível.

 

Seu curiador ( bebida ) seja na Umbanda ou Quimbanda é sempre o vinho tinto, bebe marafo ( cachaça ) apenas quando está em trabalhos de demanda ou em casos extremos onde é necessário manipular energias mais pesadas em prol do progresso de seus filhos-de-fé.

 

Alguns pseudo-videntes tem pregado que sua manifestação através da visão mediúnica é de uma Pantera Negra ou algum tipo de ser meio homem meio felino, um tremendo erro que deve ser desmistificado.

 

Bem como nos primórdios da Umbanda e da Quimbanda haviam médiuns que supostamente incorporavam o Sêo Pantera Negra e comportavam-se como animais ferozes e selvagens, muitas das vezes precisavam ser amarrados quando manifestos, um tipo de manifestação medíocre e infeliz, que serviu por anos como meio de impor o medo nas pessoas e o temor em cultuar esse poderoso Caboclo, que em momento algum imita algum felino em sua manifestação na terra.

 

Sua manifestação através da vidência quando se apresenta é de um típico Índio Americano, devidamente paramentado para a guerra, sempre ereto e de olhar firme envolto em uma luz vermelha sem brilho.



Seus médiuns de incorporação são sempre do sexo masculino, são raros os casos de médiuns do sexo feminino, ele também jamais admite mentiras ou mistificações em seus trabalhos, além disso não usa cocares de penas em sessões de Umbanda nem paramento algum quando se manifesta para prestar a caridade, na Quimbanda quando manifesto jamais usa chapéus na cabeça, gosta sempre de olhar nos olhos de seus filhos e filhas-de-fé, sempre trabalha de pés descalços, encara com firmeza seus consulentes, mas pode sim usar capa como forma de mostrar seu caráter Quimbandeiro e como indumentária do culto.

Seu assentamento ou o assentamento de dos componentes da Linha dos Caboclos Quimbandeiros é feito com muito mironga e com fundamentos bem diferentes do que costumamos ver em várias casas que cultuam a Quimbanda.

 

Meu sincero e cordial Saravá à todos aqueles que cultuam o Sêo Pantera em suas casas e em seus corações, muita luz, paz e força!

Aos sinceros Filhos e Filhas-de-fé que desejarem maiores informações sobre o culto ao Poderoso Pantera Negra,


e terão toda orientação possível, sobre como assentar corretamente, oferendas, obrigações e segredos deste poderoso Caboclo Quimbandeiro.

 

Saravá Poderoso Pantera Negra!

Mulheres médiuns e caboclas espirituais

Por: José Francisco Miguel Henriques BairrãoI; Raquel Redondo RottaIIMétodo

Os dados foram coletados com base em observação participante, notas em diário de campo e conversas guiadas por roteiro com médiuns desincorporadas e incorporadas por suas caboclas. Procedeu-se a uma observação atenta do contexto umbandista baseada na tese de inspiração psicanalítica de que atos equivalem-se a dizeres (LACAN, inédito).

O método de observação participante (MALINOWSKI, 1922-1998) foi aplicado tendo em vista o modo como a intersubjetividade entre pesquisador e sujeitos pesquisados se configura nas religiões afro-brasileiras. Assim como o pesquisador observa, é observado pelo grupo, que o socializa e significa-o dentro de sua lógica própria (SILVA, 2000), o que em psicanálise se chamaria de transferência. Em relação à umbanda, Bairrão (2005) afirma que o pesquisador, ao pedir para que espíritos narrem suas histórias, é cuidado e interpretado pela espiritualidade. É colocado no papel de consulente, ou seja, de filho da casa. Ao interpretar o pesquisador, a umbanda o significa, mostrando-o, tal como qualquer outro filho, participante da produção de sentidos que nela se manifesta.

A experiência psíquica suscitada pelo trabalho de campo não pode ser menosprezada. Dessa forma, a atenção às vivências do pesquisador, tal como do psicanalista, faz parte do seu trabalho. Processo semelhante ao que em psicanálise se conhece como contratransferência, tendo sido Devereux (1967-1977) que pela primeira vez aplicou esse conceito ao contexto etnográfico.

Em muitas das conversas com médiuns incorporadas repetiu-se o fato de as entidades espirituais nos aconselharem a não tentarmos entender o que são as caboclas apenas por intermédio de perguntas. Era preciso senti-las. A atenção flutuante a sensações, ações e palavras (a significantes) que se repetiram resultou em informações que apareceram nos dados de maneira entrelaçada e talvez por isso reiterativa. Ou seja, foi praticamente impossível isolar um tema apenas para efeito de análise, sendo que estes em geral se concretizam em situações em que aparecem em composição com outros aspectos igualmente significativos.

A atenção aos dados permitiu percebê-los ordenados em três eixos que não podem ser tratados em separado, mas que são indispensáveis a uma melhor visualização da concatenação dos sentidos veiculados de permeio às entidades caboclas (o seu nome, o seu contexto, as suas falas e as suas ações). São eles: a composição do cenário das entidades espirituais; as suas funções religiosas e rituais; e o tipo de vínculo entre médiuns e suas entidades espirituais. A leitura dos dados segundo estas três perspectivas, não obstante a sua intrínseca interligação, permitiu que sutilezas e minúcias viessem à tona e a análise se tornasse mais precisa.

Não se propõe uma nova teoria a respeito da religiosidade umbandista. O foco foi dirigido ao que dizem as religiosas sobre suas relações com as entidades caboclas, assim como ao que dizem as caboclas sobre si e sobre suas médiuns (incluindo informações e impressões coletadas no decorrer da convivência com as comunidades umbandistas participantes). As primeiras impressões suscitadas pelo trabalho de campo foram devolvidas e repensadas à luz dos comentários e reações das interlocutoras humanas (médiuns) e espirituais (caboclas), em um processo contínuo de produção coletiva de conhecimento.

O trabalho de campo foi desenvolvido com médiuns e em terreiros umbandistas de Ribeirão Preto e região. Participaram a Casa de Caridade Mãe Maria, o Centro de Umbanda de Oxalá e Iemanjá, o Núcleo de Umbanda Sagrada Flecha Dourada (Bonfim Paulista), a Tenda de Umbanda Filhos de Iansã, o Terreiro de Umbanda do Pai José do Rosário e o Terreiro Pai Benedito (Jardinópolis). Por motivos éticos, não se identificam as médiuns colaboradoras. Cabe frisar que três delas não pertencem às comunidades citadas, sendo suas participações independentes de seus vínculos institucionais. Os nomes das entidades caboclas, que não poderiam por si só identificar as médiuns participantes, foram mantidos, inclusive por se tratar de um item fundamental para a análise.

Resultados e Discussão

Ao buscar as caboclas, todo o universo umbandista se comunicou. Nos primeiros momentos, outra linha de entidades fez-se notar: as pombajiras. As duas são espíritos femininos cultuados na umbanda, sendo que as caboclas se associam à beleza e à natureza (frequentemente às terras úmidas, e às matas) e as pombajiras se relacionam ao erotismo e ao ígneo. Muitas vezes foi necessário conversar com as colaboradoras incorporadas pelas pombajiras, antes de obter entrevistas com as caboclas. Outras vezes, as médiuns falaram mais sobre essas entidades, mesmo quando as perguntas se referiam às caboclas. As próprias, incorporadas em suas médiuns, indicaram a importância de se trabalhar com as pombajiras: “precisa aprender a fazer fogo para se virar na mata” (Cabocla Ianca).

Esses fatos estão de acordo com a organização do culto umbandista, cujos rituais não começam antes de se homenagear exus e pombajiras. Mais que isso, tais dados sugerem uma trama profunda entre os diversos tipos de entidades e dão dicas a respeito de como o universo umbandista se manifesta e responde aos que o procuram. As caboclas não se apresentam isoladamente: integram um sistema que também as revela por meio das vozes de outras mulheres, espíritos ou humanas: pombajiras, pretas velhas, baianas, médiuns, consulentes etc. É possível, pela lógica da umbanda, uma entidade espiritual enviar um recado para alguém por intermédio da boca (do corpo) de outra pessoa, incorporada ou não. A Cabocla Flecha da Mata diz que quando precisa falar algo para sua médium, “essa índia [a cabocla] faz essa empurramenta, pra bater bica com outras índia [outras pessoas] cá, nessa oca, para transmitir essa pensamenta”.

No convívio com as caboclas e ao analisar os depoimentos coletados, a sensação de beleza se repetiu insistentemente. Elas mostraram-se belas, em muitos sentidos. Uma das entrevistadas (Cabocla Ianca) falava com uma entonação melódica e de forma poética, compondo um cenário agradável de imaginar: “echa cachoeira, echa formosa, echa festeira, echa tinha echa muito verde, echa muito peixe, echa sol raiando echa forte, echa formoso”. Todas fizeram referências a adornos, cocares, tranças e outros tipos de enfeites “pra ficar formosa, cabocla sempre gostou de ficar muito formosa, bonita” (Cabocla Sete Espadas). Uma das médiuns disse conhecer também a cabocla que sua tia recebe: “(…) de cabelo comprido, sempre cheiroso (…) coisa de cuidado da pele, sabe?”. Suas médiuns se emocionam ao falarem delas. Disseram que suas caboclas são doces. E sempre mais bonitas e morenas que as mulheres que as recebem. Uma cabocla foi descrita sendo “magra, cabelo grande, de pedaços. Cor de índia, olhos grandes, muito pretos, penas na cabeça, pernas, tanga. Nos seios, um pano” (médium da Cabocla Flecha da Mata). Outra valoriza suas características, como a “pele bem escura, fia. Esse não a cá, esse. Escura. (…) Essa esse cabelo comprido, liso.” (Cabocla Sete Espadas). Evidenciamos que as caboclas evocam sensações de beleza e ternos sentimentos: “Me faz sentir bem. Chego a ficar emocionada quando eu sinto que é ela” (médium da Caboclinha).

O significante água se repetiu de forma importante, muitas vezes relacionado a emoções. As caboclas disseram ter vivido perto de rios, lagos ou cachoeiras. As que participaram deste estudo eram caboclas de água doce. Evidenciou-se uma intersecção com Oxum, orixá feminino relacionado ao amor, à água doce, à feminilidade e à beleza. Uma médium nos contou que elas “trabalham muito nas emoções, nas águas”. As águas também se destacaram em conversas informais com médiuns e caboclas. Fazem parte do cenário de experiências de vida ligadas à espiritualidade, como por exemplo no caso de uma mulher que, em visita a uma cachoeira, por intermédio de uma médium vidente, soube da presença de uma cabocla, que sempre a acompanha. Disse ainda a Cabocla Flecha Pequena: “qüi no mato, água, água, muita água, que corra”. A médium da Caboclinha mostrou uma figura na qual a reconhecia. Era o desenho de uma mocinha negra, com os pés dentro de um lago. A Cabocla Sete Espadas descreveu um ambiente de matas alagáveis: “esse muita água e muita mato filha (…) esse muito esse água”. As médiuns também sonham com água e relacionam esses sonhos a vivências de cunho espiritual. A que recebe a Flecha da Mata contou que sonha com água cristalina e acorda em paz, como se tudo fosse perfeito, em uma atmosfera que diz estar em sintonia com sua cabocla. Outra médium afirmou que sonha com água frequentemente, e acredita se tratar de uma ligação com suas entidades. Este resultado é coerente com o encontrado em um estudo sobre o simbolismo da água na umbanda: Graminha e Bairrão (2009) destacam a sua relação com os sentidos de vida, fertilidade, feminino e, principalmente, maternidade. Além disso, “muita água, que corra” por entre as matas remete a um sentido de movimento.

Sonhos contados por três médiuns sem contato entre si são ilustrativos de como os significantes que se repetiram no decorrer da pesquisa apresentaram-se correlacionados. Entre eles, destaca-se a água, a feminilidade e a maturidade. Em um deles, a colaboradora se vê em uma piscina, debaixo de chuva, com a mãe, em um contexto em que a médium deixava a mãe para ir atrás do que desejava: seguir o som de tambores (para a médium os tambores significam um dos tipos de chamado do mundo espiritual). Todas as outras pessoas que apareceram nesse sonho eram mulheres. Destaca-se a água, o gênero feminino, a maternidade e o tornar-se adulta, ou seja, desvencilhar-se dos domínios da mãe. No sonho relatado por outra médium, o sentido do tornar-se uma mulher adulta se repete: ela se encontra com uma senhora com a aparência de índia, de cabelos longos, que a coloca na frente de um espelho e tira seus cabelos do rosto. Revela-a diante de seu reflexo (metaforicamente associável à superfície das águas). E assim ela cresce, se transforma, torna-se mulher capaz de amar e ser amada. No terceiro sonho, a médium diz ter encontrado uma mulher mais velha, que a chama para conhecer algo importante, barrando a entrada do seu marido no local. Era uma árvore enorme, a qual a mulher chamava de Jurema. Jurema, além de uma árvore sagrada em cultos de origem indígena que estão entre as raízes da umbanda, também é o nome de uma linha de caboclas, muito tradicional (BAIRRÃO, 2003b). E o sonho reverberou: a médium contou seu sonho à mãe de santo, que se emocionou e lembrou-se de uma árvore com as mesmas características, que todos dizem ser a árvore de sua finada mãe, famosa mãe de santo, figura de admiração e respeito. As caboclas também são tidas como mães. Tratam os fiéis como seus filhos. Emocionam as pessoas e apresentam-se como mulheres. Mulheres sempre mais (fortes, bonitas, morenas etc) como exemplos a serem seguidos.

As plantas, assim como a água e a maternidade, também surgiram repetidamente. Árvores e matas compõem o cenário das referidas entidades espirituais. As caboclas se descreveram nesses ambientes e suas médiuns referiram sentir-se bem neles. Uma das médiuns disse gostar de mato. Se não pode ir fica “aguada”. Água e mato. A Ianca disse morar na “mata profunda, densa, fechada, perto do rio”. Outra cabocla disse que “essa [Cabocla] Flecha Pequena, aqui, mata, lonja, lonja”. Ressaltam-se os adjetivos relativos à mata, que incitam a um sentido de algo desconhecido, misterioso. Ratifica o pai de santo de uma das casas participantes: “as caboclas trazem um mistério que mexe com o íntimo das pessoas”. Ainda, a grande árvore do sonho da médium acaba remetendo à mãe (da mãe de santo), uma figura de mulher idosa, assim como a senhora índia do outro sonho. A figura da índia leva a pensar em matas ou florestas. Mulheres que se metaforizam em plantas e plantas que “são” caboclas. Disse a Cabocla Sete Espadas:

[...] como natureza saísse de dentro de cabocla. E se cabocla saísse de dentro de natureza, esse. Quando cabocla pegasse esse pedaço de planta, filha, é como se cabocla esse estivesse lá dentro, filha. Essa, como fosse pedaço de cabocla.

Na mesma direção, uma colaboradora fala sobre a Flecha Pequena: “é como se fundisse, né”. Tão próximo e desconhecido.

As flores também apareceram relacionadas às caboclas. Disse a médium da Caboclinha: “A minha [cabocla], ela tem um cheiro, (…) é uma mistura de cheiro de mato, mato mesmo, com uma coisa assim de flor, (…) eu sei que é ela”. Muitas destas entidades “trabalham” entregando flores aos seus fiéis. Uma das médiuns disse sobre as caboclas: “elas nos trazem flores, alegria, felicidade, facilidade para tornar nossa caminhada mais cheia de coloridos”. E complementou: as mulheres sob influência de caboclas “são normalmente mais femininas e delicadas”. Ainda, uma senhora umbandista aconselhou a manter flores em casa. Flores são como “encantamentos que estão dando contorno às estradas”, para se caminhar com “alegria e leveza”, disse uma das médiuns.

Deve-se atentar para o cunho concreto da linguagem umbandista. Apesar de uma das médiuns, mais intelectualizada, usar a palavra flor como metáfora de alegria e felicidade, geralmente os elementos não são simplesmente símbolos que remetem a algum sentido predeterminado. Estão dados objetivamente e presentificam divindades por meio de cheiros ou da presença do próprio elemento.

Terra também emergiu de forma importante na análise dos dados. A médium da Caboclinha disse que sua cabocla é pé no chão, é “da terra, mesmo”. A Cabocla Ianca afirmou estar perto quando os fiéis precisam dela: “se ouvir bater no chão com o pé, sou eu”. É a terra que fornece as ervas com as quais a Cabocla Jurema prepara os banhos de limpeza (física e espiritual) para seus filhos. A Cabocla Ianca contou como faz remédio: a folha das plantas deve ser “amassada, punha um pouco de água, barro, deixava no sereno a noite toda”.

Cabe aqui retomar uma hipótese explorada por diversos autores (CARNEIRO, 1964; SANTOS, 1995; PRANDI; VALLADO; SOUZA, 2001), particularmente a respeito do candomblé, segundo a qual a linha dos caboclos seria cunhada pela necessidade de inserção de um elemento autóctone num culto de origem africana em novo território (as Américas). “Terra” pode remeter a território e corroborar a ideia de que os caboclos são cultuados pelos descendentes de africanos como os donos da terra, ou seja, como espíritos ligados ao território brasileiro. Por outro lado, o significante em questão também pode admitir um sentido de chão, local seguro para caminhar. O chão, a terra, é “o que te dá subsídios pra caminhar”, disse uma das médiuns. As caboclas tornam “nossa caminhada mais cheia de coloridos”. A Inaê Obá contou que indica o caminho que sua médium deve seguir. Ainda, “Cabocla [Sete Espadas] esse quer ver esse tudo fiarada formosa, filha, caminhando pra esse caminho ser colorido, filha”. A médium da Cabocla Estrela d´Dalva disse que “ela [cabocla] trabalha para iluminar o caminho dos seus filhos”. Ao iluminar ou sustentar o caminho das suas médiuns, as caboclas as incitam a colocarem as suas vidas em movimento.

De formas variadas, luz também acompanha o contexto umbandista relacionado às caboclas. Suas médiuns as consideram espíritos evoluídos, de muita luz. A Cabocla Sete Espadas tem “esse pele bem escura, fia (…) muito sol, muita luz”. Disse a médium da Caboclinha “eu consegui enxergar, estava escuro, né (…) essa luz era ela [cabocla]”. Complementa: “Quando ela chega, parece que o ambiente fica mais claro, parece que a luz aumenta.”. Outra médium contou que sua cabocla clareia seus pensamentos. A estrela desenhada no ponto riscado da Cabocla Jurema serve “para iluminar a fiarada da terra”.

“As caboclas nos inspiram para a vida. Nos dão inspiração, e não só coragem pura”, contou uma das médiuns. Elas parecem transmitir um misto de firmeza e serenidade, em um sentido de fluidez natural da vida. Nas descrições e autodescrições foi relatado que elas vivem em aldeias. Diz Flecha Pequena que “aldeia, mata, cabocla ajuda, muita, muita lua, fica aldeia”. Neste contexto, emerge a imagem de uma convivência tranquila com parentes e uma vida comunitária geralmente harmônica com os outros habitantes. Todos trabalham, se ajudam e cuidam das crianças. Ensina a Cabocla Jurema que, em sua aldeia, não era preciso muito trabalho, como hoje em dia, pois Tupã trazia “toda la correrada”, ou seja, tudo o que era necessário.

Serenidade e firmeza: “Essa cabocla é Flecha da Mata. Porque essa era muito formosa essa nomadora (…). Essa índia era muita guerreira”. Essas caboclas foram descritas como mulheres destemidas, que não se amedrontam diante da guerra ou dos perigos da mata. E determinadas, seja no ato de aconselhar suas médiuns e fiéis ou ao se descreverem. Uma delas disse não aguentar ficar parada, precisar ir à luta. A Cabocla Sete Espadas se descreveu persistente: “Essa cabocla essa era muito, como fala hoje, teimosa, filha. Quando cabocla queria, esse fazer coisa, filha, (…) mostrava que esse precisava fazer”. Notamos a expressão dessa força e determinação inclusive na imagem das médiuns incorporadas. A postura ereta, o olhar altivo e seguro. Realizam os passes com movimentos firmes, e suas “chegadas e partidas” acontecem rapidamente, “(…) como uma rajada de vento, que me joga, me pega assim, é ela” (médium da Cabocla Sete Espadas).

Além dessas expressões de força e determinação, pode-se observar o que é dito por meio dos movimentos corporais durante a possessão. Médiuns incorporadas por caboclas das águas (Sete Cascatas e Caboclinha, por exemplo), enquanto andam delicadamente para a frente, movimentam seus braços e mãos de forma circular, em movimentos ondulatórios que evocam água corrente. As caboclas mais relacionadas com Oxóssi, orixá caçador ligado às matas (Flecha da Mata, Flecha Pequena, entre outras) batem firmemente seus punhos no peito e se movimentam como se atirassem flechas. Sentidos de movimento já se fizeram notar pelas imagens de água correndo pelas matas e pela ideia de caminho a ser percorrido. Pode-se dizer, então, que as entidades espirituais impelem suas médiuns a movimentarem-se tanto concreta quanto metaforicamente. Os movimentos corporais parecem sintetizar significados de movimentação na vida, como ensina a Cabocla Jurema à sua médium: “Ela tem muita coisa para fazer, direção para tomar, mas não toma. Fica parada no meio do caminho (…). Ela sabe que tem que seguir em frente”. Assim, as mulheres sob a influência de suas caboclas se movimentam (como a água que corre, a vida que flui). Vão adiante, desenvolvem-se, buscam realizar-se.

Os resultados até aqui apresentados se entrelaçam e se compõem esteticamente numa espécie de escrita visionária que apresenta as caboclas como um horizonte espiritual entretecido de referências significantes à natureza pujante da terra eivada de matas e rios. Por meio de combinações possíveis dentro desta linguagem, cada cabocla personifica e dá um colorido particular a uma instância de alteridade que se delineia como uma composição de quadros de significações sensorialmente vividas, que podem expressar e estar articuladas a nuances sutis da experiência psíquica das suas médiuns. Para efeito de ilustração, segue o relato das relações entre uma cabocla e sua médium, que na ocasião da pesquisa tinha cerca de 40 anos e residia na periferia de Ribeirão Preto. Casada e mãe de dois filhos, trabalhava durante o horário comercial. Fora do trabalho, cuidava da casa e das crianças.

Sua relação com a cabocla que incorpora passa por questões de autoconhecimento, misto de intimidade e encontro com o desconhecido, que pode causar medo. A mulher diz ter certo receio de sua cabocla, “… como se ela fizesse uma barreira,… bem, é… ou talvez ela seja até muito mais, tá, então eu sinto essa barreira”. A médium sente uma barreira entre elas. Elas estão distantes: a mulher fala mais de suas outras entidades do que de sua cabocla. E a forma como a cabocla se expressa é de difícil entendimento: “cabocla soba jamba, poca tempa, cabocla livra, corra”. A médium inclusive falou sobre sua entidade espiritual: “eu não conheço ela”. E interrompeu o que estava falando para perguntar: “mas não tem uma luz aqui, não? (…) cadê a luz daqui?”. Pelo encadeamento de seu discurso, fica clara a relação que ela faz entre a distância entre elas e a falta de luz (no ambiente e metaforicamente no seu panteão pessoal).

A relação com a cabocla pode servir de veículo de expressão da distância entre sua vida atual e o que ela gostaria de viver. A médium diz estar longe de si mesma: “acho que faz tanto tempo que não sei o que é ser eu mesma, que eu sinto falta disso, sabe?”. Em seu discurso, aparecem queixas de falta de liberdade: “Até agora não consegui sair, mas um dia eu consigo”. Antes presa pelo pai, agora se sente limitada pelo marido e pelos filhos. Diz ela: “A prioridade é dos meninos e dele, eu quase não tenho.”. Quando questionada sobre o que gosta, ela diz que “pra mim, esse lugar perfeito é assim, (…) é um ranchinho na beira de um rio (…) e mato, muito mato. O sonho era tá lá, com o pé na terra, abraçar as árvores”. Aparecem os significantes relacionados com as caboclas: mato, água (rio) e terra. Seu sonho é estar com o “pé na terra”, ou seja, tocar a vida para frente, escolher seu caminho e segui-lo, conhecer e posicionar-se em relação ao seu desejo. Sente-se impedida de fazer isso. Ou ainda, “tenho medo de cair no rio (…) não sei o que é, tenho medo de morrer afogada”. Água e emoções relacionam-se neste universo, portanto, pode-se supor certa dificuldade em entrar em contato com suas emoções.

A cabocla parece distante, brava, mas faz-se notar: “sinto ela assim, é… boa, mas brava, enérgica”. Conta também que, quando está em contato com sua cabocla, sente “a mata, o cheiro do mato, é como se eu me encontrasse. Sabe, é como se fundisse, né.”. Portanto, essa instância de seu panteão pessoal parece impelir, apesar das resistências e receios da mulher, ao autoconhecimento, que tem como consequência o amadurecimento e a serenidade.

Considerações finais

É provável que a umbanda, com suas caboclas, proporcione meios para que suas fiéis elaborem os tipos de desafios e correlatas vicissitudes que elas podem experimentar na qualidade de mulheres e mães, sedimentando a busca pela maturidade. A par do seu estatuto, tal como os umbandistas o assumem, especificamente transcendente e espiritual, as caboclas parecem, do ponto de vista da dinâmica psíquica das suas médiuns, impelir a consumação de um ideal de pessoa e consubstanciar imagens de mulheres realizadas.

Os resultados ratificam que as caboclas, inseridas no contexto da umbanda, interpelam as pessoas a partir de um entrecruzamento de significantes, que se combinam de infinitas formas, refletindo o humano (BAIRRÃO, 2003a), a partir de uma plataforma externa, coletiva e social (CRAPANZANO, 1977). Familiarizar-se com esses dispositivos sociais pode ser útil na atuação de profissionais psicólogos que, ao trabalharem com a população brasileira, invariavelmente entrarão em contato com esse universo.

Este estudo, longe de tentar apreender as caboclas em sua totalidade, traz à tona sentidos comumente encontrados no universo simbólico referente a elas na umbanda. Nesse contexto, dentre os significantes que se repetiram, destacaram-se água, terra, árvore e matas (plantas), caminho e luz. A terra parece relacionar-se a uma base de sustentação para um andar adiante, um caminhar rumo a um amadurecimento. A água, combinada com terra e luz, lhes permite assumir a forma de árvores e outras plantas, vida que se enraíza na terra e cresce, se desenvolve. As caboclas apresentam-se como beleza iluminadora dos projetos de vida (caminhos) das suas médiuns, luz da terra que muitas vezes literalmente se especifica por meio do colorido das flores. Sentidos veiculados pela água, como sensibilidade e inspiração, penetram e circulam (fluem, movimentam-se) nos recônditos menos acessíveis da mata, que por sua vez remete a um sentido de desconhecido a ser explorado.

Os dados confirmaram que as possibilidades de sentidos expressados pela linguagem umbandista vão além da comunicação verbal. Incluem o que pode ser dito por intermédio de movimentos corporais, que sintetizam significados, e por meio de imagens de cenários e objetos usados ritualmente. Nesse sentido, comprova-se a utilidade de olhar para os dados pelas três diferentes perspectivas, ou eixos, inicialmente descritas: a composição do cenário das entidades espirituais, as suas funções religiosas e rituais, e o tipo de vínculo entre médiuns e suas entidades espirituais. Por exemplo, uma cachoeira pode ser o cenário onde as caboclas se descrevem e também o local concreto onde as médiuns se sentem mais próximas a esses espíritos, assim como a imagem de águas em cascatas pode sintetizar sentidos de movimento, fluidez e fertilidade.

Seja na forma de pés que caminham firmemente, ou de estrelas iluminadoras, as caboclas se apresentam às suas médiuns como imagens construídas esteticamente, a partir de combinatórias de significantes a elas relacionados. A água, por exemplo, comporta variações que vão do deserto (a referência é pela falta) a terras completamente alagáveis. E esses arranjos plásticos do elemento água se combinam também com outros significantes e suas modelagens, compondo sentidos específicos, por meio de uma escrita por imagens (pictografia) capaz de expressar e refletir a complexidade humana de forma sofisticada.

Não é possível conhecer as caboclas por si só. Elas se mostram em relação. Suas narrativas, descrições e autodescrições aparecem como mensagens relativas a alguém que com elas interaja e esteja disponível para dar ouvidos aos significantes que as compõem; implicação esta que se proporciona num dispositivo simbólico e social, o ritual, que se põe a serviço de construções e elaboração de identidades.

As caboclas propõem-se como alteridades suficientemente distantes para que as suas médiuns se vejam refletidas, mas também igualmente perto para que exerçam uma força de atração rumo à realização de um ideal de pessoa que elas consubstanciam. Neste sentido, tanto iluminam processos de autodescoberta como, ao proporem-se como um ideal de realização a ser alcançado, funcionam contrastivamente, mostrando às médiuns e a quem as procure não apenas uma imagem do já dado, como um modelo de qualidades a ser alcançado. Uma e outra coisa ao mesmo tempo.

Nesta medida as caboclas, as narrativas de suas vidas e dos cenários da sua ação, tanto revelam a sua natureza luminosa como, pelo fato das imagens que as refletem e do seu potencial reflexivo (luz e espelho ao mesmo tempo) serem figuras significativas (significantes), induzem, aconselham, mais pelo exemplo do que pelas palavras, àtransformação pessoal daquelas que as vêem, ou melhor, para quem se mostram. É o que se percebe nas várias narrativas em que as médiuns ora se apresentam como parecidas com as suas caboclas, ora estas como tendo superlativamente alguma qualidade que as mulheres compartilham ou que gostariam de vir a ter (altas, morenas, independentes, bonitas, determinadas, confiantes etc.). Deste modo, o seu estudo não apenas permite conhecer uma parte relevante da espiritualidade umbandista, como, ao dar-lhe ouvidos, também nos conta a respeito do universo existencial e psicológico das mulheres que se dedicam ao seu culto.

Referências



BAIRRÃO, J. F. M. H. Caboclas de Aruanda: a construção narrativa do transe. Imaginário – USP, São Paulo, v. 9, p. 285-322, 2003a.
____________________. Raízes da Jurema. Psicologia USP, São Paulo, v. 14 n. 1, p.157-184, 2003b.
____________________. Sublimidade do mal e sublimação da crueldade. Criança, sagrado e rua. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 17, n. 1, p. 61-73, 2004.
____________________. A escuta participante como procedimento de pesquisa do sagrado enunciante. Estudos de Psicologia, Natal, v. 10, n. 3, p. 441-446, 2005.
CARNEIRO, E. Ladinos e crioulos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.
CRAPANZANO, V. Mohammed and Dawia: possession in Morocco. In: CRAPANZANO V.; GARRISON, V. (Org.). Case studies in spirit possession. New York: John Wiley, 1977.
DEVEREUX, G. De la ansiedad al método em las ciências del comportamiento. México: Siglo Veintiuno Editores, 1967-1977.
GRAMINHA, M. R.; BAIRRÃO, J. F. M. H. Torrentes de sentidos: o simbolismo das águas no contexto umbandista. Memorandum. Belo Horizonte, v. 17, p. 122-148, 2009.
LACAN, J. Le Séminaire, livre XIV: La logique du fantasme. Ano do Seminário Inédito (originalmente pronunciado entre 1966-1967).
LAMBEK, M. Human spirits. A cultural account of trance in Mayotte. New York: Cambridge University Press, 1981.
MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Abril Cultural, 1922-1998. (Os Pensadores).
PRANDI, R.; VALLADO, A.; SOUZA, A. R. Candomblé de caboclo em São Paulo. In: PRANDI, R. (Org.). Encantaria brasileira. Rio de Janeiro: Pallas, 2001.
SANTOS, J. T. O dono da terra. Salvador: Sarah Letras, 1995.
SILVA, W. O antropólogo e sua magia. São Paulo: Edusp, 2000.

Cabocla Flecheira Lua Cheia

A cabocla Lua Cheia é sempre a primeira a baixar no terreiro. Coloca-se no centro e lança suas flechas de luz nos quatro cantos do terreiro. Toma suas ferramentas de trabalho e faz uma limpeza fluídica nos médiuns que Ela escolhe, seguramente por necessitarem desse tipo de descarrego. Antes de subir, deixa o terreiro limpo e com muito axé, preparado para a gira. Saravá, Cabocla Lua Cheia

Fonte: http://atabaque26.wordpress.com/nossa-gira/

QUARUP

O Quarup (Kuarup) é um ritual de homenagem aos mortos ilustres celebrado pelos povos indígenas da região do Xingu, no Brasil. O rito é centrado na figura de Mawutzinin, o Demiurgo ou Deus de algumas culturas indígenas da região do Xingu, no Brasil. É uma deidade antropomorfa e inacessível, sendo considerado também o primeiro homem do mundo. Criou os outros homens e instituiu o ritual do Kuarup.

Mawutzinin foi a causa primária da criação, deixando-a depois para que seguisse seu rumo próprio, não mais interferindo nos acontecimentos. Ao contrário de outras religiões como o Cristianismo, não se admite na religião do Xingu um comércio ou comunicação pessoal com Deus sob forma de preces ou invocações.

Kuarup também é o nome de uma madeira. Em sua origem o Quarup teria sido um rito que objetivava trazer os mortos de novo à vida.

O mito original

Mawutzinin, desejando trazer os mortos de volta, entrou no mato e cortou três troncos de kuarup, levando-os para o centro da aldeia. Ali os pintou e adornou com colares e penas. Mandou que fincassem os troncos no chão, e chamou duas cutias e dois sapos cururu para cantarem com ele, e distribuiu peixes e biju para o povo comer.

Incrédulos, os índios não cessavam de perguntar se os troncos iriam mesmo virar gente, ao que Mawutzinin respondia que sim, os troncos virariam gente. Então o povo da aldeia começou a se pintar e gritar. Cessada a cantoria, os índios quiseram chorar junto aos kuarup, pois representavam seus mortos, mas Mawutzinin os impediu, dizendo que viveriam, e por isso não podiam ser chorados.

No dia seguinte o povo quis ver os kuarup, mas Mawutzinin não deixou, dizendo que todos deviam esperar a transformação por mais um tempo. À noite os troncos começaram a se mexer, como se o vento os balançasse, e Mawutzinin ainda não permitiu que a gente os visse. Os sapos cururu e as cutias então cantaram para que assim que virassem gente os troncos fossem ao rio se banhar.

Quando o dia clareou a transformação já era evidente: da metade para cima os troncos já tinham forma humana. Os cantos continuavam, e Mawutzinin ordenou que todos os índios se recolhessem para suas ocas e não saíssem. Ao meio-dia a transformação já estava quase completa, e Mawutzinin chamou o povo para que saísse das ocas e fizesse uma grande festa, com gritos de alegria, mas aqueles que tivessem tido relações sexuais durante a noite não tiveram permissão para sair. Apenas um índio foi por isso impedido, mas não aguentando a curiosidade, saiu também, quebrando o encanto, e os kuarup voltaram a ser madeira.

Zangado, Mawutzinin disse que doravante os mortos não reviveriam mais no Quarup, seria apenas uma festa. E mandou que os troncos fossem removidos e lançados na água, ou no meio da mata, e assim foi feito.

O Quarup é realizado sempre em homenagem a uma figura ilustre, seja por sua linhagem seja por sua liderança, e é uma grande honra prestada a esta pessoa, colocando-a no mesmo nível dos ancestrais que viveram no tempo em que Mawutzinin andava entre os homens, e incorporando-a à história mítica.

O Início

Tipicamente o ritual inicia com a chegada de grupos de índios de outras aldeias, que ocorre em meio a muitas danças. Depois alguns índios vão ao mato e cortam um tronco de kuarup, constroem uma cabana de palha em frente à Casa dos Homens, e sob ela fincam o tronco no chão. A seguir o tronco recebe uma decoração, acompanhada de cantoria que elogia o aspecto formoso do morekwat (chefe) que está sendo homenageado, falando com ele como se se tratasse de uma pessoa viva.

Após estes preparativos, chegam os índios restantes, e acomodam-se na periferia da aldeia. Arma-se uma fogueira em frente ao tronco, sucedem-se danças e cantos, e um índio de cada grupo vai ao fogo recolher uma chama para acender as fogueiras dos grupos.

À noite acontece o momento de ressurreição simbólica do chefe homenageado, sendo um momento de grande emoção. Então as carpideiras começam o choro ritual, sem que os cantos em volta sejam interrompidos. Aos primeiros raios do sol do dia seguinte o choro e o canto cessam, os visitantes anunciam sua chegada com gritos, e iniciam competições entre os campeões de cada tribo, seguidas de lutas grupais para os jovens.

O huka-huka como luta ritual

Como luta ritual, o huka-huka é praticado durante o Quarup e possui simbolismo competitivo, onde a força e virilidade dos jovens é testada. A arte marcial está inserida num amplo contexto de competições realizadas em virtude do Quarup.

Aos primeiros raios do sol do dia seguinte ao início do Quarup, termina o momento de ressurreição simbólica e o choro e o canto cessam. Os visitantes anunciam sua chegada com gritos, e iniciam competições de huka-huka entre os campeões de cada tribo, seguidas de lutas grupais para os jovens.

Então o morekwat da aldeia que sedia o Quarup se ajoelha diante do morekwat de cada tribo visitante e, em sinal de boas vindas, lhe oferece peixe e biju, que são distribuídos entre os seus.

Terminadas as lutas ocorre um ritual de troca, moitará, onde cada aldeia oferece produtos de sua especialidade. O ritual é encerrado com o tronco sendo lançado às águas.

LIVROS


Mavutsinim e o Kuarup


Rosana Rios


Ilustrações Rubens Matuck


Temas Diversidade cultural • Meio ambiente e natureza


• Mitos fundadores • Relação entre mortos e vivos


• Rituais indígenas. Superação da morte • Xingu


http://www.edicoessm.com.br/backend/public/recursos/Guia%20de%20leitura%20Mavutsinim%20e%20o%20Kuarup.pdf

Quarup


é um romance do escritor brasileiro Antônio Callado publicado em 1967.

Sinopse

A ação de Quarup transcorre no período que vai do suicídio de Getúlio Vargas (1954) ao golpe militar de 1964 e mostra, sob a ótica do jovem padre Nando, a realidade social e política do Brasil desses tumultuados dez anos.

O padre Nando, um jovem ingênuo, puro e idealista, tem o sonho de reconstituir no Xingu uma civilização semelhante a que existiu nas Missões jesuíticas do sul do Brasil na época colonial e, para isso, tem que ir ao Rio de Janeiro, então capital do país, para obter a necessária licença do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), órgão que deu origem à atual FUNAI.

No Rio, toma contato com a sociedade permissiva do sexo livre e das drogas (que na época era o hoje o inocente lança-perfume) e com a corrupção política, pois os dirigentes do SPI desejam manipular o projeto de Nando em proveito próprio.

A segunda parte do livro transcorre no Xingu, em duas ocasiões diferentes: durante o quarup, ritual indígena, que funciona para Nando e outros personagens do romance como um rito de passagem, e durante a expedição para instalação do marco que identifica o centro geográfico do país, onde constata que o esforço despendido e a coragem demonstrada pelos expedicionários são inúteis para evitar um resultado frustrante. Na Amazônia, Nando se apaixona por Francisca, com quem mantém relações sexuais.

Na terceira parte, Nando, que já deixou a vida sacerdotal, está com Francisca em Pernambuco. Inicialmente, trabalha na alfabetização de adultos, mas, com o golpe de 1964, é preso, pois esta atividade educativa era vista como subversão. Francisca viaja para a Europa e, depois de solto, Nando passa então a viver uma vida despreocupada, centrada apenas no sexo, se transformando, conforme suas próprias palavras, em apóstolo do amor. Mas, após passar por várias experiências traumáticas, resolve aderir à luta armada contra o regime militar.

http://www.cortel.com.br/blog/2011/09/02/quarup-a-despedida-dos-grandes-guerreiros-do-xingu/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Quarup

Caboclo 7 Flechas

Sarava Seu Sete Flechas, ele é o Rei da mata
O seu bodoque atira oi paranga, sua flecha mata

A chegada dos Caboclos da Falange Sete Flechas, no Terreiro é sempre de uma energia contagiante, belíssima.

Certa vez, estava no Terreiro de um amigo, e a entidade chefe dele, na linha dos caboclos, mandou chamar a falange 7 Flechas para um determinado trabalho. Os caboclos presentes, “subiram” e os médiuns ficaram disponíveis para a incorporação de “Muitos 7 Flechas”.

Foi uma das cenas mais lindas que vi na linha dos Caboclos. Mas melhor que vê a chegada dessa falange, é estar presente na gira e disponível para servir como médium desses valorosos guerreiros de Pai Oxóssi. Só sabe, quem trabalha com eles.

Saravá meu Pai

Okê!

JUNTE SE A NÓS NO AXÉ GRUPO BOIADEIROREI

Caboclo Sutão da Mata

Vou lhes falar um pouco da historia do meu caboclo sultão das matas. 

Foi ele quem me contou. Um certo dia ele estava na sua aldeia e chegou um colonizador e começou a fazer contato com ele. Esse colonizador tinha uma filha, que quando viu o sultão das matas, ficou logo apaixonada, mas o Sultão das Matas não correspondeu com o mesmo sentimento, pois sabia que eles faziam parte de um mundo diferente e aquele romance não seria possível. 


Mas a moça bolou um plano para ficar com ele. Foi o seguinte: ela pegou uma galinha e matou e passou o sangue entre as pernas e ficou toda ensangüentada e falou para o pai dela que tinha sido o sultão das matas que tinha pegado ela a força. Ela achou que com esse plano maquiavélico o pai dela ia fazer os dois se casarem e que eles seriam felizes. Mas foi tudo ao contrario. 


Quando o pai dela soube do suposto acontecido ficou muito bravo e chamou os seus soldados armados e capturou o Sultão das Matas e colocou amarrado em um tronco de madeira e colocou muita madeira em volta dele e tocou fogo nele vivo. Quando a mãe do caboclo, a cabocla Yara viu aquilo não agüentou ver tanta perversidade e injustiça e correu e agarrou-se ao Sultão das Matas e morreram os dois queimados na fogueira. 


Depois disso ele foi doutrinado no mundo espiritual e perdoou seus agressores, mas passou a lutar sempre contra as mentiras e as maldades e a injustiça. Quem for verdadeiro sincero e honesto e justo, pode chamar por esse caboclo que ele esta sempre pronto a atende-lo


obs: essa é a história do meu Sultão das Matas em particular, que ele me contou. Mas podem haver outras e muitas historias de Sultão das Matas. 


kizouuuuu sultão 



Texto de: Pedro dos Santos, de Irecê, Bahia

Pular as sete ondas no final do ano


Pular as setes ondas
Porque pular 7 ondas no ano-novo
Trata-se de uma tradição africana ligada à umbanda e ao candomblé. O 7 é um número considerado espiritual (são 7 os dias da semana e os chacras). Pular 7 ondas ajudaria a invocar os poderes de sete Orixás poderosos e no final a Iemanjá a deusa do mar, que purifica e nos dá força para vencer os obstáculos do ano que está por vir.
Primeira Onda Pai Obaluaê
Que nosso Pai Obaluaê retire todas as doenças de nossas vidas
Segunda Onda Pai Xangô
Que nosso Pai Xangô nos de a Justiça em nossas vidas
Terceira Onda Pai Ogum
Que nosso Pai Ogum proteja nossos caminhos
Quarta Onda Mamãe Oxum
Que nossa Mamãe Oxum proteja nossa família e amigos
Quinta Onda Pai Oxossí
Que nosso Pai Oxossí proteja nosso trabalho e nos de força na caminhada
Sexta Onda Cosme e Damião
Que nossos queridos Cosme e Damião proteja nossas crianças e nosso futuro
Sétima Onda Mamãe Iemanjá
Que nossa Mamãe Iemanja ilumine e proteja o ano novo que se inicia.
No final saia de costas do mar e saúde nosso Pai Oxalá, fazendo uma corrente de força em todos seus pedidos e que receba sua firmação aqui com muito amor ao próximo.
Porque pular sete ondas?
O numero sete é um número perfeito, vamos contar aqui um pouco sobre o numero sete:
7 cores do espectro;
7 notas musicais;
7 mares;
7 maiores continentes;
7 dias da semana;
7 níveis de complexidade;
7 maravilhas do mundo;
7o. dia de descanso.
O número sete também possui um alto significado na Bíblia, onde ele tem implicações místicas para muitas religiões e sistemas espirituais.
SETE REINOS
Os antigos cabalistas revelaram que o nosso mundo físico de três dimensões mais a quarta dimensão do espaço e tempo representam apenas uma porção insuficiente da realidade.
Existe muito mais além da limitada percepção humana.
Existem, dez dimensões que formam a realidade.
As três dimensões mais elevadas, chamadas Três Superiores, existem fora da nossa realidade física.
As Sete Inferiores, entretanto, se manifestam diretamente e interagem com o nosso ambiente.
As Sete Inferiores estão relacionadas com 7 planetas de influência astrológica. Como pensava a maioria dos antigos astrólogos os 7 planetas afetavam o nosso reino de experiências, os cabalistas também compreenderam que existiam outros 3 planetas: Netuno,Urano e Plutão mas que eles não tinham efeito direto sobre o nosso mundo.
TECIDO DA REALIDADE
O cabalista do século 13 Rabino Abraham Abulafia disse que estes 7 níveis estão imbuídos na criação. Ele os identificou como:
· FORMA = ENERGIA
· MATÉRIA = PARTÍCULAS SUBATÔMICAS
· COMBINAÇÃO = ÁTOMOS
· MINERAIS = MOLÉCULAS
· VEGETAIS = PLANTAS
· ANIMAL = ANIMAIS
· HOMEM = HOMEM
De acordo com Abrahão o Patriarca, existem 7 portais para a alma. Os olhos podem ser as janelas da alma, mas há 7 portais no total: 2 olhos,2 ouvidos, 2 fossas nasais e a boca.
Abrahão revelou este conhecimento

O que quer Dizer???

Puuuuuxa que alegria, é final de ano e com as tradicionais avaliações que normalmente acontecem nesse período tenho ouvido e recebido muitos depoimentos emocionantes com “finais” cheios de esperança.

Estou encantada com tantas histórias lindas e arrepiantes que venho presenciando, aliás, estou extremamente agradecida e feliz pelas inúmeras amizades conquistadas esse ano.

Fico aqui lembrando de alguns rostos, dos vários abraços, das inesperadas lágrimas, dos espontâneos sorrisos e inúmeros arrepios que tão intensamente vivenciei e vi várias pessoas vivenciarem em cada aula. Foram tantas falas “diferentes” que estimularam novos olhares, novas percepções, novos sentido de ser, estar e viver. Foi tudo tão rico.

Lembro de alguns textos postados nesse blog que provocaram suspiros, lágrimas ou ainda perplexidade, não é mesmo? Foram textos escritos com tanta emoção, verdade e intensidade que depois de alguns dias ao rele-los me emocionava e pensava: “Nossa! Não acredito que tive capacidade de escrever isso. Nossa!!! “Alguém” escreveu isso e não fui eu!” ufa… Foi tudo tão grandioso.

E as giras então… Ahaa, aqui eu preciso parar para respirar fundo e acalmar pois foram momentos tão especiais e únicos, momentos tão plenos, tão cheios de energia, ensinamentos, bondade e coragem que me faz tremer por dentro. Foi tudo tão divino, tão nobre e tão amoroso.

Sem dúvida nenhuma esse ano foi para mim e para Umbanda Carismática o mais vibrante, o mais intenso e o mais forte em todos os aspectos, e com as lembranças, conquistas e ensinamentos levo em meu coração muitas pessoas que me ajudaram, que me inspiraram, que confiaram em mim a ponto de vivenciarem comigo vários momentos desse ano.

Dessa forma, como retribuir? Como agradecer? O que desejar nesse período de festas e início de ano a todos vocês meus amigos, alunos e filhos? Como demonstrar meu carinho e gratidão a todos vocês que me ouviram, que confiaram em mim, que mudaram algumas atitudes por “pensar comigo”? O que falar para todos aqueles que entenderam o meu “modo diferente” de ver a Umbanda e a vida e resolveram assumir suas responsabilidades mediúnicas, espirituais, religiosas, umbandistas e humana? O que desejar a todos os umbandistas que vi chorar diante da cachoeira ou sentado na cadeira? Que persistiram? Que ficaram de preceito? Que se emocionaram, trabalharam e se transformaram comigo?

O que? Como?

Ééé… Não tenho essas respostas, mas tenho o reconhecimento. O reconhecimento sincero de que esse ano só foi tão especial para mim e para Umbanda Carismática por causa de tantas pessoas especiais que fizeram e ainda fazem parte de minha vida.

Portanto, nesse final de ano, olhando para trás, recebendo tantos e-mails emocionantes e tantos bons votos, quero agradecer imensamente a todos vocês e dizer que, sem dúvida, a minha história fica muito mais rica, mais grandiosa, mais divina, mais nobre e amorosa com vocês pertinho de mim.

Feliz espírito natalino e excelente 2012 a todos.

Meu AXÉ carinhoso cheio de agradecimento, um vídeo encantador cheio de bons exemplos para inspirar nossa vida e uma música para servir de reza, prece ou uma forma de bem viver.

O natal é amor, amizade, união, harmonia, respeito, carinho, fraternidade, solidariedade e compreensão.

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Natal deveria ser todo dia!!!

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Axéééé

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Dia de Gira de Pretos Velhos

Era dia de “Gira de Preto Velho” no terreiro. Enquanto os consulentes chegavam ansiosos e esperançosos em levar de volta a “solução” daqueles problemas que atrapalhavam suas vidas, na frente do congá os médiuns vestidos de branco e de pés descalços concentravam, ligando-se aos seus protetores e guias.
O ambiente denotava simplicidade e era mobiliado apenas por al cadeiras para acomodar os consulentes, banquetas para os médiuns que serviriam de “aparelhos” às entidades espirituais e o congá onde um vaso de flores, outro de ervas e os elementos ar, fogo, água e terra se faziam presentes. Acima, uma imagem de Jesus resplandecente de luz.
Iniciando-se a sessão através de pontos cantados e orações, após uma leitura espiritualista elucidativa, iniciavam-se as incorporações de maneira moderada. Do lado astral, as falanges de trabalhadores já haviam chegado muito tempo antes dos médiuns e ali já haviam preparado o ambiente fluidicamente. Uma varredura energética havia sido feito pelos elementais onde primeiramente atuaram as salamandras e após as sereias e ondinas, fazendo com que toda a matéria astralina densa que ali se encontrava, fosse transmutada permitindo a chegada dos espíritos trabalhadores.
Na porta do ambiente, junto à firmeza, a vela e a cachaça eram dados ao exú tronqueira, e seus comandados, impondo respeito e segurança formavam verdadeira muralha armada, impedindo a invasão de seres indesejáveis ao bom andamento do trabalho da noite.
Cada um dos consulentes que adentrava ao ambiente passava agora primeiro pela defumação que queimava junto à porta, em cumbuca de barro, exalando o cheiro das ervas perfumadas sendo incineradas pelo carvão vegetal. Equipes de limpeza se movimentavam no lado espiritual, recolhendo as larvas astrais e outras espécies de energias deletéreas que ali eram desagregadas dos corpos dos consulentes, as quais não eram totalmente absorvidas pelo carvão ou transmutadas pelo elemento fogo.
Em alvíssimas vestes, os amados Pais e Mães, na sua roupagem fluídica de Pretos Velhos, trazendo a alegria estampada em sua energia, tomavam conta de seus “aparelhos” médiuns, atuando no chácra básico dos mesmos, obrigando-os a dobrar as suas costas à semelhança de velhos arqueados, incentivando-os ao trabalho fraterno.
E assim, de consulente em consulente, de caso em caso, com a paciência e sabedoria que lhes é peculiar, entre uma baforada e outra de palheiro ou de alguma espanada com o galho de ervas na aura daqueles filhos, os bondosos espíritos cumpriam sua missão. Eram conselhos, corrigendas, desmanche de magia negra, de elementares artificiais negativos, limpeza e equilíbrio dos corpos sutis, retirada de aparelhos parasitas e às vezes, alguns puxões de orelha necessários, em forma de alerta. Tudo de acordo com o merecimento do consulente, pois cada um trazia consigo a mostragem de sua “ficha cármica” onde estavam impressos o que a lei permitia ser mudado, bem como o que ainda era necessário que com eles permanecesse.
Vó Benta, espírito portador de grande sabedoria e humildade, apresentando-se naquele local com o corpo astral de negra velha de pequena estatura, com roupas simples e alvas, cuja saia comprida e larga era coberta por um avental onde um bolso era recheado de ervas e patuás, tinha uma maneira simplista e diplomática de fazer com que os filhos entendessem que eles próprios eram seus médicos curadores:
- Minha mãe, acho que estou sendo vítima de “trabalho feito” pela minha ex-mulher…
Sorrindo e com linguagem peculiar, segurava com firmeza as mãos do moço passando-lhe com isso confiança e com a voz recheada de afeto respondia:
- Negra Velha vai explicar para que o filho entenda: -Quando sua casa está totalmente fechada, fica escura e nada pode entrar, às vezes nem a poeira. Não é isso? Quando o filho abre as janelas e portas, a luz do sol entra invadindo todos os cantos, mas podem entrar também as moscas, baratas, formigas e até os ladrões, não é? Para a sujeira e os bichos, o filho pode usar a vassoura, para os ladrões a lei, a segurança. E para a luz do sol? Ah, essa filho, fica ali iluminando até que o filho feche toda a casa outra vez. Assim também é a nossa casa interna; quando nos fechamos para a vida, para o trabalho, ficamos no escuro e ao nos abrirmos, deixamos a luz entrar, mas ficamos sujeitos a todas as outras energias que pululam ao nosso redor. Mas como acontece na casa material, onde não houverem os atrativos da sujeira e do lixo, os insetos não se aproximam. Se estivermos equilibrados, sem raiva, mágoa, ciúmes, vícios e todos esses lixos que os filhos buscam na matéria, nada nem ninguém consegue afetar nossa energia, nossa vida. Só o sol permanece no coração de quem procura manter-se limpo.
Negra Velha sabe que esse mundão está de cabeça para baixo. No lado material os filhos andam desarvorados pela dificuldade de sustento de suas famílias, quando não, em busca de supérfluos. Mas mesmo assim, é preciso lembrar aos filhos, que embora estejam na matéria e sujeitos à ela, a vida real está no espírito imortal. É preciso dar mais atenção, senão prioridade, à essência em detrimento do restante, para que possa haver o equilíbrio dos elementos inerentes à vida, na sua totalidade.
O mal que é enviado aos filhos, só vai instalar-se se encontrar no endereço vibratório, ambiente adequado. Sem contar que, o medo é porta aberta e atrativo para a entrada do desequilíbrio. O medo é sentimento muito usado pelas energias da esquerda, uma vez que fragiliza o corpo emocional facilitando sua atuação mórbida. Por outro lado, Negra Velha pergunta para o filho: – se a desordem não houvesse se instalado, por acaso o filho estaria aqui, sentado no chão, em frente à Preta Velha, buscando humildemente ajuda espiritual? Nem sempre o que nos parece mal, é tão prejudicial assim. Pode ser o remédio adequado para o momento, ou talvez a estremecida necessária no corpo astral dos filhos, para que a ordem possa reinstalar-se.
As trevas, meu filho, estão vinte e quatro horas de plantão. E os filhos, acaso estão? Não adianta orar e não vigiar, pois o pensamento é energia e com ele nos adequamos ao campo energético que quisermos.
Antes da hora grande as falanges da egrégora dos Pretos Velhos, despediram-se de seus aparelhos, alguns precisando largar e desfazer a vestimenta astral usada para que pudessem chegar até os aparelhos mediúnicos e voltavam agora para as bandas de aruanda, onde continuariam suas atividades no mundo astral. Pois como diz a Vó Benta, “se pensam que morrer é dormir e descansar, os filhos estão muito enganados…desse lado tem muito trabalho e como nem o Pai está imóvel, quem somos nós cuja ficha cármica demonstra um vasto débito, para nos aposentarmos?”.
Agora as velas apagam-se, os elementos voltam a integrar a natureza, os elementais após limparem o ambiente retornam aos seus devidos reinos, os elementares foram desagregados pela força e sabedoria dos pretos velhos e os médiuns voltam aos seus lares com a sensação de paz que só é sentida por aqueles que cumprem com seus deveres.

Preto Velho já foi,
já foi prá Aruanda,
a benção meu Pai
Saravá prá sua banda…
Saravá todo Preto Velho e toda Preta Velha na Umbanda
Adorei as Almas!!!
Fonte: Espiritualizando com a Umbanda
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